CUIDE-SE
SAÚDE

08/03/2018 16h24

Assédio sexual

Quebrando o silêncio


Neste março, mês das mulheres, certamente não haverá assunto mais debatido do que o assédio. O tema saiu definitivamente do armário em 2017, com uma enxurrada de denúncias vindas de Hollywood, capitaneadas por mulheres bem-sucedidas, influentes e empoderadas.

Um levantamento feito pela cineasta Asia Argento mostrou que ao menos 82 mulheres - entre elas Salma Heyek, Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie - vieram a público denunciar o comportamento do produtor todo-poderoso, Harvey Weistein, que cometia abusos desde a década de 80.

Após este caso, diversos outros vieram à tona, culminando inclusive na criação de um fundo milionário anunciado pelas artistas – com o objetivo de subsidiar a defesa legal de mulheres (e homens) assediadas ou abusadas em local de trabalho.

Bem longe da calçada da fama, no Reino Unido, a Universidade de Cambridge admitiu, em fevereiro deste ano, enfrentar “problemas significativos” de abuso sexual, depois de ter recebido ao menos 173 denúncias desde maio de 2017. Os casos foram descobertos após a implantação de um programa de denúncias online, anônimo, chamado Breaking the Silence. Um dado do Centro Nacional de Recursos contra a Violência Sexual do Reino Unido estima que 90% dos casos de assédio que ocorrem em universidades não são denunciados. A porcentagem deve se repetir em outros setores.

Mais perto de nós, na área da saúde, foi a vez da ONG Médicos sem Fronteiras abrir sua chaga. Sua cúpula reconheceu, também no início de fevereiro, 24 casos de assédio ou abuso sexual cometidos por seus profissionais, somente ano passado. O anúncio abalou ainda mais as estruturas do setor humanitário, uma vez que a ONG britânica Oxfam enfrenta críticas internacionais por denúncias de que foi omissa diante de casos de exploração sexual cometidos por seus funcionários no Haiti, e em outros países.

Em todos os cenários, os números devem estar subestimados porque em geral as vítimas se calam, seja por medo, vergonha ou até mesmo por receio de perderem seus empregos e prejudicarem a carreira. Se atrizes poderosas demoraram anos para virem a público, que dirá mulheres sem projeção na mídia. A criação de mecanismos de denúncia anônima pode encorajar as vítimas porque ajuda a diminuir a retaliação e a exposição. É um bom começo.

Mais do que encorajar as mulheres a denunciar, porém, é preciso que os homens também se apropriem do problema, mesmo porque, embora em menor escala, homens também são assediados. Chega de fingir que o abuso se limita aos assediadores e suas vítimas. Chega de hipocrisia. O combate ao assédio começa na mudança da postura do homem em relação à mulher. Ser contra o assédio é, também, ser contra piadas machistas, ser contra a discriminação da mulher no local de trabalho, e ser contra a valoração da mulher exclusivamente pela aparência física.    

O abuso só irá parar quando homens e mulheres tiverem a mesma importância, os mesmos direitos e os mesmos deveres. Assédio sexual é um problema da nossa sociedade, e não apenas de parte dela. Torna-se fundamental que nós, homens, adotemos tolerância zero em relação a todo tipo de abuso. Por se tratar de uma mudança acima de tudo cultural e social, os comportamentos não vão mudar como num passe de mágica. A coragem de milhares de mulheres foi um necessário e extraordinário primeiro passo. Agora cabe a nós, homens, avançar nessa causa.

 

Yussif Ali Mere Jr

Médico, presidente da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP) e do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de Ribeirão Preto e Região (SINDRIBEIRÃO)